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Clínica Le Sense - Psicologia Integrada

O perfume das paixões

O disfarce da fragrância nas relações afetivas

Natacha Braz - Psicóloga



Os perfumes franceses possuem grande fama e apreciação, porque, além de revelarem fragrâncias sedutoras, duram muito tempo na pele. A fixação do cheiro deriva de um óleo muito valioso, extraído das baleias e de difícil acesso. Quanto melhor a qualidade do óleo, mais caro é o produto. Assim como nos perfumes, as pessoas também desejam que seus relacionamentos afetivos sejam intensos e duradouros, entretanto o que frequentemente observamos é exatamente o contrário: relacionamentos rápidos, superficiais e frágeis.

Seria este fato um mal do mundo moderno, em que a busca desenfreada por prazer resultaria em um consumismo que potencializa descartes e trocas – inclusive nas relações humanas? Talvez, mas o assunto parece abranger mais vertentes. Trabalhar para consumir mais, para ser mais feliz, para possuir mais e mais e mais indefinidamente... Até mesmo do companheiro ou companheira! Sim, porque o nível de exigência para relacionar-se cresce exponencialmente nos dias de hoje. Determinadas qualidades já não são consideradas suficientes e a busca pela perfeição do parceiro parece não ter fim – assim como as frenéticas inovações tecnológicas lançadas continuamente no mercado de consumo. É como se não houvesse tempo para "parar de querer", pois sempre pode surgir algo melhor, mais interessante. O que as pessoas esquecem é que, se a dinâmica de um relacionamento não está funcionando bem, não adianta simplesmente querer trocar de objeto para deslocar o problema que não foi resolvido.

Quando falamos de mercadorias é mais fácil trocar o equipamento defeituoso do que mandar consertar, pois, às vezes, isso sai mais barato e causa menos transtorno. Entretanto, se tal raciocínio for aplicado ao ser humano, a solução que se apresenta é esporádica e de baixa qualidade, bem como a fragrância dos testadores nas perfumarias. Para que o cliente possa experimentar à vontade e depois decidir-se, o perfume dos provadores geralmente não possui fixador e é composto apenas do cheiro. Ou seja, não dura muito tempo na pele, é só uma fragrância, não é um perfume! Juntando-se a essas dificuldades do mundo moderno, ainda contamos com o medo que todos temos da felicidade. Pode parecer estranho em um primeiro momento, mas o psicanalista Flávio Gikovate explica. Segundo ele, tendemos a ser mais destrutivos exatamente quando estamos muito próximos da felicidade. A paixão deriva de um sentimento amoroso intenso e de um medo igualmente intenso de que o estágio de completude proporcionado pelo encontro deixe de existir. É usual escutar a mesma frase de pessoas diferentes: "Quando está tudo indo muito bem na minha vida, eu até acho estranho e tenho medo do que possa estar por vir!" O fato é que, na grande maioria dos casos, o medo predomina sobre a felicidade, uma vez que "incomoda mais" o aparelho psíquico e precisa ser eliminado rapidamente. No caso dos amantes, nota-se uma forte tendência autodestrutiva que se encarrega de arrumar argumentos para justificar um afastamento.

A pitada trágica das paixões, o sofrimento incutido nos clássicos românticos como Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda, bebem dessa fonte. Não é à toa que a palavra patologia deriva de pathos [paixão em grego]. Vemos muito medo nos olhos dos amantes apaixonados, pois diversos já se decepcionaram excessivamente em suas vidas. Contudo, eles não podem continuar a viver, sendo escravos dessas experiências para sempre.

É possível superar os medos e encontrar a felicidade em conjunto. Se um relacionamento irá durar, não é possível saber, vai depender do par. São eles que farão dessa história um conto, um capítulo ou quem sabe um livro. O mais importante é escrever junto, pois diversos casais costumam viver as mesmas CENAS, mas nem sempre a mesma HISTÓRIA!

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